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 Trunfo improvável
Por:  René Dióz
Fonte:  Diário de Cuiabá

Mesmo as cabeças mais progressistas ainda não se prestam a botar os pingos nos i’s ou a adotar posturas com um dedo a menos em cima do muro. Quando o assunto é a descriminalização do uso de entorpecentes, custa crer que isto ainda seja tabu, um debate empacado. Ao passo que países vizinhos como Argentina e Paraguai sinalizam para o fim da repressão em suas políticas de controle – cujo caráter aparentemente consistiria em redução de danos – o palco estreito para o tema no Brasil se mostra ainda escasso de referências, tal qual o noticiário.

O resultado é que o discurso pró-descriminalização ainda se limite aos redutos sem prestígio para a opinião das massas. O conteúdo pertinente que o embase não é contemplado, o que apenas contribui na marginalização de quem o defende. Quem compartilha da opinião é o pesquisador baiano Sérgio Vidal, organizador de um dos poucos espaços confiáveis na blogosfera de discurso pró-descriminalização do uso de drogas como a maconha. “Não é que o Brasil se encontre atrasado nessa discussão. O país precisa ainda é viabilizá-la”, esclarece, apontando que, além da falta de referências, o preconceito mina a abordagem da imprensa em pautas que repercutam o uso de drogas, mesmo as leves.

Sem piadinhas, o blog mantido por Vidal, Observatório da Cannabis apresenta argumentação e conteúdo embasados, que espantam o preconceito habitual no trato com a polêmica da descriminalização – vide a última entrevista com o pesquisador Edward McRae, doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), autoridade em políticas sobre drogas e defensor da descriminalização do uso da maconha. Entre outros postos, McRae é titular do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad) e observa que, até dias atrás, o desenvolvimento do debate pela descriminalização estava num caminho “completamente fechado pela ignorância, pelo preconceito e pelo autoritarismo”. Desse autoritarismo nato, diz McRae, “a implantação e manutenção da proibição das drogas é uma espécie de reforço ritual”.

Nada como um outro ponto de vista, pra variar. Afinal, até hoje, o histórico que se tem é de Ministério Público (MP) sabotando a livre expressão – uma ação do MP proibiu a Marcha da Maconha em quase todo o país no ano passado – e os poucos espaços que se abriram nacionalmente para o tema já traziam em seu eixo uma discussão baseada na sub-cultura que se criou graças ao ranço conservador e à histórica repressão estatal. Contrariar esta linha seria um trunfo essencial, mas honestamente improvável, para a 1ª Conferência Municipal Sobre Drogas, a ser realizada amanhã durante o dia inteiro pela Prefeitura de Cuiabá.

René Dióz é repórter

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